Porque arde Portugal todos os anos? Floresta nas mãos de 400 mil proprietários
Sofremos incêndios cada vez mais catastróficos porque a floresta cresce selvagem. A gestão florestal é o conceito-chave para travar os grandes fogos.
Sofremos incêndios cada vez mais catastróficos porque a floresta cresce selvagem
Ninguém sabe ao certo quantos proprietários florestais existem em Portugal. O último levantamento oficial do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), publicado em 2021, indica que "apenas 46% dos espaços florestais possuem cadastro predial". Mesmo assim, estão contabilizados 11,7 milhões de prédios rústicos com uso agroflorestal. Há mais terrenos florestais do que portugueses.
Grande parte dos proprietários nem sequer conhece as matas que herdou. "Estima-se que mais de 20% do território não possui dono ou este é desconhecido", declara o ICNF.
A floresta está em plena expansão. No final do século XIX, ocupava 600 mil hectares do território. Agora, preenche três milhões e meio — seis vezes mais. "Um terço de Portugal é floresta. Portanto, somos relativamente recentes a ter floresta", comenta João Bandeira, engenheiro florestal.
Durante muito tempo, a exploração agrícola e a pastorícia garantiram o equilíbrio deste ecossistema. O problema é que quase desapareceram. Já não há roçadores de mato para dar ao gado, pouca lenha é retirada para aquecer as casas. O Interior está cada vez mais vazio. "O que é que acabou por acontecer? Uma acumulação de combustível brutal", resume o engenheiro.
O fogo como fenómeno natural vs. fogos descontrolados
O fogo é um fenómeno natural no clima mediterrânico, faz parte da renovação do ecossistema. Já os fogos descontrolados são uma consequência inevitável da acumulação de combustível, porque a floresta cresceu desordenada e não é limpa.
Pelo menos desde 2017, o ano da dupla tragédia, estamos perante um fenómeno novo: incêndios de dimensões catastróficas. O maior de sempre foi o de Piódão, em 2025: andou à solta por sete municípios dos distritos de Coimbra, Guarda e Castelo Branco. Queimou 645 quilómetros quadrados de árvores e matos — uma área superior à dos concelhos de Lisboa, Amadora, Odivelas, Oeiras, Cascais e Sintra, todos somados.
Floresta gerida: o conceito-chave
Como uma empresa, a floresta precisa de ser gerida. "O que podemos fazer para travar os grandes incêndios? A gestão", declara João Bandeira.
Em setembro de 2024, um incêndio que deflagrou em Penafiel galgou 18 quilómetros de floresta e só parou às portas do Porto. Devorou tudo, à exceção de dois povoamentos de eucalipto da Navigator. Resistiram, intactos, sem qualquer apoio de bombeiros. As imagens de uma ilha verde numa paisagem de carvão são a prova real de que o planeamento e a gestão são as melhores armas contra os fogos.
Com a escassez e o custo crescente da mão de obra, é necessário deixar espaço entre as árvores para operações mecânicas de limpeza. Num povoamento "gerido", as árvores são plantadas com racionalidade. Entre elas, há espaço suficiente para os troncos engrossarem, receberem nutrientes e crescerem saudáveis. E para a circulação das máquinas de rasto e de limpeza.
A preciosa minoria dos povoamentos geridos
Os estudiosos da floresta distinguem ao longe a preciosa minoria dos povoamentos que estão geridos. Se é possível ver o solo entre as copas das árvores, isso é um bom indício. Nos espaços não geridos, que são a maioria, árvores raquíticas competem por cada palmo do território. Chegam a formar uma barreira impenetrável, a que os peritos chamam "pêlo de cão".
A maior parte da floresta portuguesa, na realidade, é "sucata": não serve para nada, a não ser para arder. O problema não é o eucalipto em si — a espécie não é relevante. O que importa é a gestão.
Este artigo é um resumo adaptado da reportagem original publicada pela CNN Portugal. Para ler o artigo completo, consulte a fonte original abaixo.
Artigo original publicado em CNN Portugal.
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